A viagem

Desde que, em 2015, publiquei Perguntem a Sarah Gross, foram várias as pessoas que me desafiaram a acompanhar uma visita à Polónia. Sempre rejeitei a ideia, nunca entendi que a minha presença pudesse valorizar substancialmente a viagem ou acrescentar qualquer coisa à prestação dos guias profissionais que nos mostram Cracóvia, ou mesmo à dos de Auschwitz, sujeitos a uma preparação exigentíssima. Se um dia aceitasse o desafio, seria para propor uma experiência diferente, em que – aí, sim – pudesse valer-me dos 30 anos que levo a investigar a perseguição aos judeus na Europa e a história dessa pequena cidade no sudoeste polaco: Oswiécim – o nome oficial, ou Oshpitzin, como lhe chamavam os judeus, ou ainda Auschwitz, como foi rebatizada pelos alemães e dada a conhecer universalmente.

Então lembrei-me do romance e de todos os seus lugares. Quantos desses cenários escapam aos tradicionais roteiros turísticos? Foi assim, a partir do itinerário de Perguntem a Sarah Gross, que esta visita foi pensada. Nela, além dos lugares mais populares de Cracóvia – a Cidade Velha, o Palácio Real de Wawel, a Fábrika Schindler, o antigo Gueto ou o bairro judeu de Kazimierz – e, ainda, dos antigos campos de Auschwitz I e Birkenau, iremos conhecer muitos outros, esses por onde passaram Sarah Gross, Henryk e Anna, Daniel e Esther, ou mesmo Max, o Corvo: a cidade de Oswiecim, a Solahutte, o Collegium Novum da Universidade...

 

Mas há mais, teria de haver mais.

Quando, entre 2009 e 2011, fiz a minha formação em Auschwitz I, conclui que visitar aqueles lugares exige preparação. Assim, nos dois meses que antecedem a partida, proponho outras tantas videoconferências, em que falaremos de Sarah Gross, discutiremos outros livros e filmes que, ao longo de oito décadas, nos têm ajudado a perceber o que aconteceu, como aconteceu e como foi possível, sublinhando as limitações da linguagem – essas de que fala Primo Levi - na representação do grande desastre humano. Já em Cracóvia, ao final de cada tarde - e antes de jantarmos juntos -, reunir-nos-emos numa sala do hotel para rever a jornada, preparar as atividades do dia seguinte e relacioná-las com o romance, uma oportunidade para que cada um partilhe o seu balanço e expectativas.

Deixo para o fim a pergunta para que não tenho resposta.

O que é que nos leva a Auschwitz?

Sempre que penso nisso, ocorrem-me as seguintes palavras de Daniel Jonah Goldhagen:

Pelo menos cem mil alemães colaboraram diretamente no Holocausto e muitos outros indiretamente; toda essa gente empregou a sua energia e as suas capacidades para a destruição do povo judeu, convencida de que ela era necessária e justa.

Este excerto destrói a ideia de que a tragédia da Shoah se deveu à obsessão de um punhado de loucos. Na verdade, só foi possível pelo empenho obstinado de uma multidão de homens e mulheres que, antes da guerra, provaram ser assustadoramente parecidos com cada um de nós. O acaso do tempo e do sangue que nos corre nas veias poupou-nos às circunstâncias que transformaram gente comum em monstros e inocentes em vítimas.

Continuo a acreditar que, entre os barracões do lager, ainda dá para vislumbrar o passeio desses fantasmas. No meio deles, há um mais assustador: o de cada um de nós, ou essa possibilidade – em Auschwitz tão tangível – de nos vermos no papel de quem quer que por lá passou, vítima ou carrasco.

Talvez todos busquemos essa lucidez, talvez esteja aí a resposta.

João Pinto Coelho

PROGRAMAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DA VIAGEM:

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