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LUGARES DA VISITA, LUGARES DO ROMANCE

RUA DOS JUDEUS - Oswiécim (Auschwitz)

"Henryk tranquilizou-o uma vez mais, afagando-lhe o ombro com amizade. O local que o Admor de Oshpitzin tinha posto ao dispor das duas partes situava-se no n.º 374 da Rua dos Judeus, apenas a alguns metros da casa dos Gleitzman e a menos de dez minutos da mansão dos Gross. Por essa razão, Henryk propusera que fizessem o caminho a pé."                                                     

 [pág. 180]

LARGO DO MERCADO - Oswiécim (Auschwitz)

"Os compradores e curiosos dividiam-se pelo centro da praça e os comércios de rés-do-chão que a contornavam, pertencentes, na sua maioria, aos judeus da cidade. Em dias de mercado, o botequim de Lazar era, sem dúvida, o mais procurado, à custa da água gaseificada que dispensava a bom preço. De resto, vendia-se e comprava-se de tudo nas drogarias, sapatarias, mercearias, talhos ou retrosarias de Oshpitzin. Mas havia outras coisas que faziam da cidade um bom lugar para viver. Clubes onde os jovens cantavam, dançavam e liam poesia, cinemas e bibliotecas, escolas, sinagogas, yeshivot  e dois rios para nadar, o Sola e o Vístula. Além disso, Cracóvia estava a uma hora de comboio, suprindo qualquer necessidade que restasse. Henryk ia contando estas coisas, procurando transmitir, pelo seu entusiasmo, uma imagem mais promissora do que a sugerida pela aridez invernosa daquela manhã.."                                                 

 [pág. 41]

GUETO DE CRACÓVIA

"- E percebemos isso quando ouvimos falar, pela primeira vez, do gueto. Se não me engano, foi na primavera de 1941. Mais um choque brutal para todos. Lembro-me de que, a princípio, nem conseguíamos perceber o que eles queriam. Um bairro judeu? Já existia um em Cracóvia. E há quase 500 anos, por amor de Deus! Que diabo pretendiam com aquilo? Estava com a Sarah quando li o decreto. Tinham-no pendurado à porta do Judenrat. Indicava razões sanitárias, razões de ordem pública, imagine. Então, acabaram por escolher Podgórze, que era um lugar do lado de lá do rio. Não faz ideia de quantas pessoas tiveram de expulsar para nos meter lá. Foram centenas de famílias polacas postas na rua de um dia para o outro."                                 

 [pág. 341]

FARMÁCIA DEBAIXO DA ÁGUIA - Cracóvia

"Apesar de pouco passar das cinco da tarde, a noite pousara sobre Podgórze como um manto negro e glacial e a neve, que deixara de cair havia dois dias, mantinha-se como gelo sujo nos passeios vazios. Empurrada pelo frio cortante, Esther chegou à Praça Zgody em poucos minutos. À distância, a farmácia pareceu-lhe vazia e receou que já ninguém a atendesse. Só se tranquilizou quando viu surgir para lá do balcão a bata inconfundível de Tadeuz. Como lhe soube bem franquear a porta e aquecer-se na temperatura convidativa daquele lugar. Não era só a que provinha do pequeno aquecedor de ferro, mas sobretudo a que lhe chegava das palavras atenciosas dos que ali estavam.

- Esther! – saudou Irena, acabada de surgir do laboratório. – Que aconteceu, estás doente?

Era evidente que não esperava visitas de cortesia àquela hora e com aquele tempo.

- É o Daniel - respondeu Esther. – Está a arder em febre e queixa-se muito da barriga."                             

 [pág. 353]

PRAÇA RYNEK - Cracóvia

"Conhecendo perfeitamente o efeito que aquilo causava em Aleck, Sarah preferiu dar-lhe a mão e levá-lo dali para fora. Percorreram apressadamente os corredores que os separavam da saída, ignorando tudo o resto à sua volta. A universidade situava-se à beira da gigantesca Praça Rynek, pelo que em pouco tempo se viram em campo aberto, rodeados por uma multidão que caminhava em todos os sentidos, gozando o sol outonal de Cracóvia. Aleck deixou-se guiar até ao Krzysztofory, um palacete do século XVII, onde funcionava há muitos anos o restaurante Pod Palma."                            

 [pág. 302]

FÁBRICA DE OSKAR SCHINDLER - Cracóvia

"- Sim, polacos - confirmou Esther. – Polacos de coração grande. Ouvi tantas, tantas histórias... Penso que as pessoas gostavam de as contar. Deixavam-nas sonhar... Falavam também do alemão da Rua Lipowa. Um homem bom, ao que parecia. Diz-se que salvou muita gente.."   

 [pág. 345]

CASTELO REAL DE WAWEL - Cracóvia

"Este jurista, conhecido pelo ódio que dedicava aos judeus, tinha sido nomeado por Hitler com a instrução precisa de pôr ordem no território. Dono de uma autoestima exacerbada pelo cargo que ocupava, Frank viajou até à Polónia, decidido a mostrar ao Führer a sensatez da sua escolha. Uma vez que Cracóvia fora indicada como capital do Governo-Geral, restava ao novo governador instalar-se de acordo com o seu estatuto e prosápia. Para isso, não achou melhor do que ocupar uma ala no mais simbólico e respeitado monumento da Polónia, o Castelo Real de Wawel."   

 [pág. 314]

COLLEGIUM NOVUM - Cracóvia

"Tratava-se de um dos espaços mais nobres de toda a Jaguelónica. As paredes eram forradas a papel carmim decorado com as armas da universidade e elevavam-se a mais de seis metros de altura. O lambrim de madeira rodeava todo o espaço e, acima deste, fixavam-se candeeiros de parede e pesadas molduras douradas, cujos retratos expunham séculos acumulados de sabedoria. Todos os presentes pareciam reduzir-se sob o peso do lugar e as conversas sobrepunham-se com uma contenção quase monástica. Quando toda a gente aguardava que fosse o reitor Splawinski a dirigir-se à audiência, abriu-se uma porta lateral, de onde surgiu, em passada larga, um oficial alemão, trajado com o uniforme negro das SS."                                                       

 [pág. 322]

BAIRRO JUDEU DE KAZIMIERZ - Cracóvia

"Apesar disso, assim como outros cracovienses mais abastados, Henryk escolhera outro sítio para morar. Considerava-se a si mesmo um assimilado, um judeu do mundo, para quem as fronteiras de Kazimierz eram uma muralha asfixiante.  Contudo, naquela manhã, sentiu um profundo prazer – poderia dizer alívio -  ao percorrer o empedrado irregular que cobria as ruelas do bairro. Era um lugar pobre, cinzento como o viver dos que acolhia, mas sentiu-se em casa. Ali ninguém lhe olharia a braçadeira e não encontraria portas fechadas. Viu passar poucos veículos, mas muita gente triste; viu homens barbudos, gastos como os fatos escuros, dobrados pela vergonha, cobertos por chapéus iguais e nuvens esmagadoras. Deslocavam-se em grupos e não paravam em frente das montras vazias, nem sorriam como Henryk os recordava. Passou pelas lojas abandonadas, pelos gaiatos sentados sem vontade de brincar e por mulheres velozes, abraçadas a sacos de pão duro como se fossem filhos. Nisto se transformara Kazimierz e os judeus da Polónia."                                               

 [pág. 334]

SOLAHÜTTE - a 30 Km de Auschwitz

"Naquela noite, Max sentiu-se mergulhado num vendaval de emoções contraditórias. Vagueou pelo Palacete no seu roupão de seda, sem nunca largar o cálice de Rémy Martin. Apesar de ser sexta-feira, preferiu ficar em casa como de costume. Muitos dos oficiais tinham por hábito aproveitar o tempo livre na Solahütte, uma pousada situada na montanha, a meia hora de Auschwitz. Max fora lá apenas uma vez, por ocasião do aniversário de Hoss, o comandante do campo, mas nunca mais lá voltara. Detestava caçar ou assistir a recitais de acordeão e, acima de tudo, não tinha paciência para tipos como Mengele ou Kramer."                                             

 [pág. 411]

AUSCHWITZ  I

"No instante em que o carro entrou na cidade, Sarah estremeceu. A estrada que ligava os dois campos não atravessava os locais que lhe eram mais familiares, ainda assim sentiu-se agredida pela paisagem. Quando passaram ao lado do portão do campo principal, sob a inscrição «Arbeit Macht Frei» , o carro seguiu em frente, paralelo à vedação eletrificada de arame farpado, e não chegou a entrar no campo."                                  

 [pág. 402]

AUSCHWITZ  II BIRKENAU

"Quando a ordem chegou finalmente, Esther e Sarah mais um grupo de prisioneiras seguiram em passos ritmados na direção do local de trabalho. Num daqueles paradoxos grotescos que tão bem diziam com a insanidade do campo, a música fez-se ouvir, melodiosa e compassada. A recém-formada orquestra de Birkenau era constituída por prisioneiras e pretendia marcar a cadência e o espírito dos corpos andantes, num clima de festividade mórbida. Todo o grupo marchava agora, atravessando o campo das mulheres no sentido da porta da morte, que era o nome por que era conhecida a entrada de Birkenau."                                           

 [pág. 397]